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A Pandemia e o pandemônio das redes sociais Vivemos tempos difíceis, temerosos e estranhos.
A Pandemia e o pandemônio das redes sociais
Vivemos tempos difíceis, temerosos e estranhos. Quando se esperava uma destruição mundial por guerras nucleares ou grandes catástrofes, vem um minúsculo organismo acelular, um vírus, e consegue desestabilizar nações, desestruturar empresas, colocar em xeque sistemas de saúde do mundo todo, fechar fronteiras e mostrar a fragilidade humana diante do incompreensível.
Todos os dias análises e críticas são publicadas, compartilhadas e comentadas. Todos os dias especialistas em saúde, bioquímica, economia, estratégia, política, geopolítica e tantos outros, dão sua opinião e conselhos; uns por serem cientistas engajados e sérios, outros por desejo de alimentar seus egos. Também todos os dias, pessoas leigas se outorgam o direito de falar o que acham de assuntos sobre os quais não têm o mínimo conhecimento.
Ao se pensarem anônimos atrás de um teclado e uma tela, vão essas leigas pessoas cheias de medo tecendo comentários sem análise, vociferando opiniões baseadas em seus achismos, e muitas vezes, em sua falta de interpretação de texto, criando polêmicas desnecessárias e toscas.
Com rapidez supersônica destituem-se e elegem-se heróis e heroínas, ao sabor de cada palpite de leitor de manchetes, seja por preguiça em abrir artigos ou por limitação de acesso às mídias. A pandemia trouxe junto o pandemônio. Talvez por estar assim, este seguindo esta no dicionário, ou talvez porque algo tão colossal quanto uma doença que atinge toda a terra traga consigo também o pavor, a insegurança, a negação, e a necessidade de se apegar a qualquer graveto que nos salve da correnteza.
O que parecemos não ver, é que a pandemia traz também a possibilidade de rever conceitos, a chance de perceber que muitos caminhos que temos seguido como humanidade não estão dando certo, ou não servem como modelo para resolução de tudo. Excesso de consumo, egocentrismo, a ideia de autossuficiência, acumulação de bens, vaidade, nada disso serve numa situação dessa. Mas se pararmos para refletir, principalmente antes de postar em redes socias, talvez possamos aprender alguma coisa.
Estamos como as pessoas na parábola da colher de cabo grande, ainda não percebemos que é alimentando um ao outro, cuidando um do outro, pensando de forma coletiva, que vamos conseguir sair o mais ilesos possível da pandemia. Estamos tendo a chance de aprender que a ciência deve ser respeitada e valorizada, e que as respostas claras vêm das instituições públicas de ensino e pesquisa.
Que só uma saúde pública universal, fortalecida e eficiente pode enfrentar crises tão grandes, atendendo a ricos e pobres. Que só quando pensamos de forma coletiva – se o outro não tem como se prevenir, pouco vai adiantar que eu me previna – é que vamos diminuir as perdas. Temos aqui a chance de aprender a sermos uma humanidade melhor do que temos sido. Mas se nada disso for possível, que ao menos aprendamos a lavar corretamente as mãos.
Márcia Rodrigues Rocha é fonoaudióloga em Ilha Solteira-SP
